Durante muito tempo, tentei escrever Mãe, Mas Ainda Eu como uma história sobre maternidade.

A voz da narradora era verdadeira. As cenas respiravam. As palavras encontravam o ritmo certo. Ainda assim, eu sentia que faltava alguma coisa.

Foi numa madrugada silenciosa, quando o café já havia esfriado e a única luz da casa era a da tela do computador, que escrevi uma frase quase sem perceber:

“O amor não cancela a perda.”

Fiquei olhando para aquelas palavras durante vários minutos.

Naquele instante, compreendi que o livro nunca havia sido apenas sobre aprender a ser mãe.

Era sobre o luto silencioso da mulher que continua existindo depois que todos passam a enxergá-la apenas como mãe.

Percebi que existe uma culpa invisível imposta a muitas mulheres: a de acreditar que amar profundamente um filho deveria impedir qualquer sentimento de perda.

Mas o coração humano nunca foi tão simples.

É possível experimentar um amor absoluto e, ao mesmo tempo, sentir falta da mulher que existia antes.

Não porque ela deseja voltar ao que era antes. Mas porque a mulher que continua existindo dentro dela também merece ser vista, ouvida e lembrada.

Foi nesse momento que compreendi que eu não estava escrevendo apenas uma narrativa literária sobre maternidade, identidade e reconstrução.

Eu estava tentando dar nome a uma experiência que muitas mulheres vivem em silêncio por medo de parecerem ingratas, egoístas ou insuficientes.

Talvez seja esse um dos papéis mais bonitos da literatura.

Dar linguagem ao que parecia indizível.

Oferecer palavras àquilo que, por muito tempo, existiu apenas como um sentimento sem nome.

Se, ao fechar este livro, uma única mulher respirar mais aliviada por descobrir que nunca esteve sozinha nessa travessia, então cada madrugada diante da página em branco terá encontrado o seu verdadeiro sentido.

Com reverência à palavra,
Liz Andrade