Existe um momento do dia em que, por alguns instantes, o barulho do mundo deixa de nos alcançar.

É nesse instante que volto para mim.

Durante muito tempo pensei que o silêncio fosse apenas ausência de som.

Hoje sei que ele tem uma música própria.

Ela não chega pelos ouvidos.

Ela nasce em um lugar onde nenhuma palavra consegue alcançar.

É uma sonoridade feita de lembranças, de esperança, de perguntas que ainda não encontrei coragem para responder e de pequenas luzes que insistem em permanecer acesas mesmo nos dias mais difíceis.

Às vezes acredito que não sou eu quem escreve as minhas canções.

Sou apenas quem aprende a escutá-las.

Cada composição começa muito antes da primeira palavra.

Ela nasce quando uma emoção encontra uma melodia.

Quando a saudade aprende a respirar.

Quando uma esperança, quase esquecida, decide florescer outra vez.

Com o tempo, compreendi que as minhas músicas e os meus livros nunca caminharam por estradas diferentes.

Eles sempre nasceram da mesma fonte.

As canções são sentimentos cantados.

Os romances são sentimentos narrados.

As crônicas são sentimentos contemplados.

Em cada uma dessas formas de arte existe o mesmo desejo: revelar, com honestidade, aquilo que tantas vezes escondemos até de nós mesmos.

Talvez seja por isso que uma melodia consiga nos levar às lágrimas sem dizer uma única palavra.

E talvez seja por isso que um livro permaneça conosco muito tempo depois de ser fechado.

Ambos nos oferecem o mesmo presente.

O reconhecimento.

Quando uma canção parece conhecer a nossa história ou um personagem toca uma parte da nossa alma que permanecia esquecida, não estamos apenas diante de uma obra.

Estamos diante de nós mesmos.

Acredito que seja esse o verdadeiro propósito da arte.

Não nos transformar em outra pessoa.

Mas devolver-nos, com delicadeza, a inteireza que a vida, tantas vezes, fragmenta.

Nas minhas canções, nas minhas histórias e em cada palavra que escolho escrever, não ofereço personagens perfeitos, melodias impecáveis ou respostas prontas.

Ofereço aquilo que existe de mais verdadeiro em mim.

Porque acredito que ninguém pode ser compreendido apenas por uma parte da sua história.

Somos feitos de luz e de sombra.

De perdas e de recomeços.

De perguntas sem resposta e de esperanças que insistem em nascer outra vez.

Somos inteiros.

E talvez seja exatamente isso que a arte nos recorde quando nos emocionamos diante de uma canção ou permanecemos em silêncio depois da última página de um livro.

Antes de me despedir, gostaria de lhe deixar apenas uma pergunta.

Quando o barulho do mundo finalmente silencia, onde é esse lugar, dentro de você, em que pode se acolher… e existir por inteiro?

Talvez toda obra de arte seja apenas um caminho de volta para casa.

Com a alma em harmonia,
Liz Andrade